Apelo ao desabafo.

Um dos objetivos mais latentes do meu intercâmbio sempre foi, e ainda é, bastante específico (e, paradoxalmente, generalista): eu queria voltar mais confiante. Em todas as searas possíveis, mas principalmente na física. Queria estar bem com o meu corpo, com o meu rosto, com a pessoa que eu era – e ainda sou. Para qualquer um que talvez observasse de fora, seria difícil denotar um problema de auto-estima. Extroversão, quase sempre, é encarada como consequência direta de auto-confiança.

Eu não nasci fazendo piada, bebendo cerveja e fazendo amigos na balada. Eu era, aliás, uma criança bastante tímida. Foi depois de um certo tempo na pré-adolescência que descobri que inteligência também desembocava em boas piadas e que, em algumas situações completamente inesperadas e não planejadas, eu conseguia fazer a sala rir de uma piada bem contada, um humor bem sacado.

Isso não significa (e nunca significou) que a minha paz interna havia sido alcançada. Pelo contrário: o humor é, sempre, máscara branca a problemas escuros. Veja, eu era (e confesso que ainda guardo ranço desse comportamento) bastante inseguro. E isso foi decisivo em muitos aspectos da minha vida e bastante determinante em todas as relações que eu já tive, amorosas ou não.

Aqui, na Inglaterra, eu parei de pentear meu cabelo. Não tenho pente e vou para o trabalho com a primeira roupa que pego no armário. Prometi a mim mesmo que eu não ligaria mais para a carcaça. E não ligo. A minha tatuagem e meu recente corte de cabelo são a prova sumária de que eu quero tomar controle do meu corpo e provar a mim mesmo que ele, em si, não importa. Pelo menos a superestrutura, a minha carapaça.  Eu raspei metade do meu cabelo com máquina zero, fiz uma tatuagem sem pensar. Não queria dar atenção aos fatos. Pele é só pele e tatuagem não é nada além de uma cicatriz proposital. Cabelo cresce. Tudo está bem.

A evolução para determinada óbice só se dá, isso é claro, quando a encaramos: eu, que sempre tive esse medo descomunal da feiúra e da não aceitação, precisava ficar à margem do que é bonito socialmente. Se eu tivesse mais tempo, colocava mais uns tantos piercings na cara e fazia mais algumas tatuagens. Elas ainda vão vir, eu sei. Descobri na arte de pintar o corpo uma liberdade interna experienciada em poucas coisas. O corpo é propriedade minha e, meus desenhos, a expressão máxima do meu direito de fazer com ele o que eu bem entender. O meu corpo é meu templo e, hoje, eu sei que ninguém poderá me dizer que eu eu, talvez, pareça um presidiário. Que eu pareça, então. O preconceito vai estar na cabeça do outro, não na minha e, sem demérito algum, não acharei ruim estar fora do círculo de comprensão da mente de gente que não consegue enxergar um palmo à frente do nariz.

Além dos crescimentos óbvios de um intercâmbio, da maior força interna, do meu amadurecimento como cidadão do mundo, eu volto mais jovem. Revigorado em uma consciência tão multicultural e bonita que eu sinto orgulho próprio. Eu sou, hoje, a melhor pessoa que já fui em toda a minha vida. Mesmo parecendo punk e tendo uma tatuagem, não poderia estar mais doce. E isso me faz repensar, de novo, nos paradigmas sociais de julgamento. No quanto existe sob a superfície de qualquer pessoa.

Todos são dignos de amor. Todo mundo tem, ao menos, uma característica passível de ser amada.  A dois meses de voltar pra uma realidade tão quadrada (e cheia de gente que não faz a menor ideia do que é amar), eu me preocupo se eu estou pronto para mergulhar de novo na esteira das vaidades. Tenho medo que vá me faltar ar.

Caio

2 Responses to “Apelo ao desabafo.”

  1. Sami Says:

    Você não vai estar sozinho na esteira das vaidades. Tamo junto brow! E to muito feliz pelo seu crescimento.

    Lov u

  2. pornatthedisco Says:

    Isso ai meu amor! Os defeitos nos faxem humanos, alguem disse.

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