A solidão de quem se sabe.

Além de uma mansidão aparente, existe sempre muita crise estelar na alma de cada um. Uma cara sóbria é falcatrua de quem quer estar bem sem poder se dar ao luxo de dizer as coisas. Quem as diz, admite quase secretamente o verdadeiro estado do ser. Não há discurso que não se entregue, mesmo o interlocutor sendo um ótimo ator.

É o momento em que as palavras revelam quem somos e quem são. Pois palavras se dotam de seus significados próprios, mas também carregam os significados de cada um de seus donos. A palavra que é igual, na boca diferente de cada um, é sempre diversa de significado. Um discurso nunca pode ser o mesmo, assim como o interlocutor está sempre em metamorfose.

É por isso que amo e odeio as conversas. As amo, pois são a única forma possível de compreensão humana, a forma mais próxima e patente de se chegar a um consentimento, a um entendimento. São nas conversas, aquelas bem estruturadas e dotadas de inteligência, que as palavras florescem. Seu propósito desabrocha. Mas também as odeio pois são todas incompletas. Nenhuma delas preenche a necessidade inicial de forma suficiente. Se a conversa existe por uma razão, essa razão nunca é plenamente explorada pela conversa em si.

Há bem que se dizer que grande parte da culpa desse destino injusto das palavras são os interlocutores em si. Humanóides demais, quase nunca construímos a frase da maneira que queremos dizê-la. É triste que nossos desejos mais íntimos, que as vontades e as razões do coração, nunca possam ser externalizadas de forma completamente coerente: há sempre uma diferença de vácuo entre o que queremos dizer e o que realmente dizemos. Quando discursamos, sempre perdemos.

E é aí que as palavras nos provam a solidão. Pois ninguém será nunca capaz de nos ler sem erros, de compreender quem somos sem perderem-se um pouco nas formas do que dizemos. O que somos por dentro, detrás dos olhos e da face, será sempre nosso mistério, pois palavra qualquer poderia traduzir. Somos mistérios em nós mesmos. Somos verdade apenas até um segundo antes do pensamento chegar à boca durante a viagem que parte do cérebro. No instante em que verbalizamos a primeira sílaba, viramos mentira, o encanto se quebra, quedamos sozinhos novamente.

Caio

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