Às 9:05 da manhã de hoje, eu saltava do ônibus número 38 – a caminho de Moortown Corner – com a Jo, uma das minhas colegas de trabalho. A manhã, assim como quase todas as outras, era bastante inglesa, fria e cinza. Enquanto caminhávamos ambos em direção ao escritório, sob chuva fininha, a Jo me contou que detestava os ônibus. “Eu sou tão alemã” – disse ela, que é mesmo natural de Berlim. “Eu reclamo de tudo”. Eu assenti e ri, querendo parecer leve e brasileiro. É mesmo interessante que eu seja um pouco reclamão mas que, naquele momento, quisesse passar a impressão do brasileiro de bem com a vida. Ela continuou: “Normalmente, o que a gente mais odeia nas pessoas são os traços da nossa própria personalidade. Eu nunca fui fã de pessoas. Quero dizer, olhe ao redor. O mundo é horrível por causa das pessoas”. Eu olhei ao redor. Vi uma velhinha inglesa atravessando a rua com a sacola de compras na mão e uma fila de crianças saindo do ônibus escolar, enquanto o padeiro tirava a primeira fornada de folhados e a colocava na vitrine. A pacata Leeds não poderia estar mais pacata. “Eu normalmente gosto de pessoas”, disparei. “É difícil eu odiar pessoas”. Que mentira. Ela replicou: “Talvez eu devesse me mudar para o Brasil, então”. Missão cumprida. O Brasil tinha virado um país legal para mais um estrangeiro.

O resto do caminho fui pensando nas pessoas. Em todas elas, não importava se as conhecia ou não. Estar longe da vida comum, e mais, do amor comum, é trabalhoso. Até com o amor a gente se acostuma. Com um certo tipo de amor. Sabemos o calor específico de cada coração por qual nos apaixonamos, seja na família ou seja nos amigos (no meu caso, essas duas categorias são exclusivas, já que o amor de amante parece ser sempre negligenciado pela vontade do meu destino). Aqui, eu tive de reaprender a amar. A amar o que não me é correlato. Aquilo que, em condições naturais, talvez eu sequer prestaria atenção.

Confesso que era preconceituoso no amor. Que sempre amei, ou tentei amar, aquilo que para mim parecia valer a pena. Para qualquer um, a afirmação pode parecer justa, mas não é quando entendemos que qualquer pessoa é digna e passível de amor.

Ontem eu tive de me despedir de um amigo querido. Talvez o mais querido que eu tenha feito durante esses seis meses que estou aqui. O Erick, mexicano da gema que não viajava sem sua salsa para pôr na comida, seria o tipo de pessoa que talvez pudesse sofrer preconceito do meu amor. Calado, confiante e de gostos específicos, nunca fez questão de agradar quem quer que fosse. Vestiu o mesmo casaco por seis meses e, confessou a mim, tomava banho raramente. Fazer a barba era luxo e ele realmente não se importava de usar um moleton sujo. Dividia o quarto comigo e, por dois meses, dividimos a cama de casal, já que ele não podia assinar um contrato de aluguel. Eu não liguei. Pelo contrário. Hoje, com a sua partida, tendo a achar a cama e o quarto odiosamente vazios e o espaço extra nas gavetas começa a me irritar.

Eu nunca fui de pesadelos. Nem quando criança. Jamais acordei chorando por um sonho ruim. Mas tive meu primeiro pesadelo aqui, do lado do Erick. Acordei chorando e gritando e, quando dei por mim, eu já recebia um abraço dele. Um abraço de verdade, sem amarras ou medos. Ele só queria me ver bem e conversou comigo até que eu voltasse a dormir novamente.

O Erick ganhou meu  carinho e amor pela sua honestidade, consigo mesmo e comigo. Pela sua alma bondosa, pela sua mente aberta, livre de preconceitos e por acreditar em mim, por conversar comigo, por ter chorado comigo, por admitir seus erros, por saber estar perdido, por não ter vergonha de pedir um abraço, por ter me abraçado quando eu tive meu primeiro pesadelo, por ter me amado.

Eu entristeço ao pensar que, muito provavelmente, a vida vai nos separar. Por mais que me doa a proposição e eu queira acreditar que poderemos manter um contato duradouro, minha perspectiva realista sabe que são poucas as amizades que sobrevivem a oito mil quilômeros de distância. Mas vou tentar. Quero visitá-lo quando ele casar com a Nallely, a namorada que virou sua noiva em Paris. Quero recebê-lo em minha casa quando, no próximo ano, ele for para a Argentina. Quero, principalmente, abraçar o Erick de novo. Pois foi no abraço que eu senti o amor.   Pois foi no abraço dele que eu me senti feliz, mesmo longe de todos aqueles pelos quais sou apaixonado no Brasil.

E eu me orgulho de sentir que o Erick não é meu tapa-buraco. Ele não é substituto para nenhum outro amor na minha vida. É único, um amor magnífico que, mesmo não se provando a todo momento pelo contato imediato, vai sobreviver em mim por muitos anos, eu sei bem disso.

A ele, que não fala Português e talvez nem saiba da existência do blog, eu agradeço. Agradeço pelo amor que eu senti. Havia esquecido. Já tinha tomado todos os meus amores como líquidos e certos e, alguns dos amores que perdi, faço questão de não me recordar. A ele agradeço com todas as forçar por ter sentido um novo amor. Eu ando triste esses dias. Mas só ando triste porque o Erick me fez bastante feliz.

Quando a gente sente um amor novo e tão bom assim, entende que todos os amores valem a pena. Que todas as pessoas merecem o amor e que, quando se ama sem fronteiras, medos ou preconceitos, a vida, como um todo vale mais a pena. Vale mais a pena porque se é todo sorrisos, e abraços, e carinho.

E eu desejo, a qualquer um que esteja lendo, um amor desses, seja ele que cara tiver, seja ele como for.

Beijos,
Caio

3 Responses to “”

  1. noitedasmeninas Says:

    Lindo texto!!! Morro de saudades de vc e fico feliz que vc tenha encontrado o “amor” e a “amizade” aí em Leeds.
    Beijos
    Nat

  2. minivaca Says:

    As saudades aqui também são constantes. Daqui a pouco estou de volta, pra amar todo mundo de volta! Beijos, Nat! (L)

  3. Sami Says:

    chorei.

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