Uma geração.

O primeiro passo para reconhecer que se está ficando velho é conseguir fazer análises da própria geração. Só se faz análises de objetos que tiveram tempo de vida suficiente para serem observados e é com tristeza que percebo que a minha geração já tem tempo de casa para ganhar pitaco.

A análise é um tanto abortada, confesso. Eu bem sei que tenho conhecimento de parcela bem específica da tal geração Y. Tendo sido criado em cativeiro, ambiente hermeticamente fechado de boas escolas particulares, cursos de inglês, faculdade pública e intercâmbios acadêmicos, entrei em contato só com gente como eu.

Comecei a estagiar um mês depois de ter entrado na faculdade. Era um dos maiores escritórios de advocacia do país e eu era o único estagiário da área de Direito do Consumidor. Me lembro de, no meu primeiro trabalho como estagiário (tirar fotocópia das principais peças de um processo), eu acabei por perguntar para o advogado como eu reconheceria e petição inicial. Ele, mais paciente do que eu esperaria, me respondeu que a petição inicial é a primeira peça dos autos, obviamente. Relevem, eu tinha apenas um mês de São Francisco e ainda pensava que seria o póximo Paulo Autran.

Quatro anos depois e eu já passei por outro escritório de grande porte, por um banco de investimentos, cursos variados, duas experiências internacionais, um intercâmbio acadêmico, um estágio na área de pesquisa e muita malandragem aprendida de uma vida profissional muito jovem. Meu currículum impressiona meu pai e até mesmo meus irmãos mais velhos. Para eles, sou menino gênio.

Coitados, mal sabem que estão sendo enganados. Meu currículum não tem nada além do que os outros currículos dos meus amigos têm. Todos falam mais de uma língua, todos possuem experiência profissional de qualidade, a maioria já viajou para o exterior. Todos eles se vestem bem. A competição é difícil. Ter nascido privilegiado (pois em um país pobre, quem tem um olho é senador) resultou em uma competição desmedida; é preciso estar sempre bem preparado sob a pena de eu me tornar um não-empregável, o que aqui é alcunha pior do que “aquele-que-não-deve-ser-nomeado”.

A minha geração é impressionante. Eu mesmo fico estupefado com a qualidade profissional dos meus amigos mais próximos. Um já é diretor de arte, outra produziu quase metade de todos os programas de TV que eu assisto, tem um que já é até CEO de uma empresa de pequeno porte. Eu corro para não ficar atrás. Em uma faculdade pública com a tradição franciscana é ainda pior: o nivelamento é por cima, muito por cima. Nessa esteira de vaidades e qualidades pessoais, é difícil manter a auto-estima e confiança em alta. Nem me comparo aos alunos de Harvard, Oxford ou Cambridge que é para me poupar a depressão.

Pois bem, em matéria de informação e capacitação, essa geração Y provou (e prova) todos os dias que é a mais preparada em tempos. Concordo e discordo. Concordo que somos inteligentes, que, se quisermos, aprendemos rápido. Que dominamos mídias e que a tecnologia não nos assusta. Somos rápidos, conseguimos fazer muita coisa em um mesmo tempo. Mas também somos preguiçosos, contamos demais com as facilidades do mundo moderno e nos falta foco. Temos medo de trabalho duro, esforço parece contraproducente e somos todos prol prazer. Trabalhar muito só se a contraprestação for condizente. “Só sou workaholic se puder ser milionário”.

E tudo isso eu acho bem natural e, em algumas medidas, bom. Nossa geração aprendeu que não vale a pena perder todos os fios de cabelo trancada em um escritório. Há vida lá fora e ela deve ser aproveitada: queremos viajar, conhecer lugares, ver coisas, tocar, experimentar, angariar sensações. Tudo pelo prazer, é preciso viver. A promessa de um lugar eterno no Paraíso não agrada mais e o Céu é aqui e agora.

Sem problemas até aí também. Parece até que encontramos a harmonia perfeita entre aspirações e obrigações. Acontece que essa geração, que experimentou muito mais facilidades do que seus progenitores, não sabe falhar, não sabe ser negada e ainda não aprendeu que a vida só se dá depois de inúmeras tentativas frustradas. Ao chegarem na vida adulta, esses adolescentes privilegiados pensam que encontrarão a continuidade de todas as facilidades das quais dispuseram até ali. Demora para esse jovem adulto perceber que o ambiente de trabalho é diferente do ambiente acadêmico protegido, que a postura frente aos problemas deve ser diferente e de que, a partir de agora, é preciso ser de ferro.

Esses jovens (e aqui eu me incluo na patota) são macios demais. Frágeis, até. Não sabem administrar a perda, uma possível incapacidade , um problema que seja. Se perdem nas formas da burocracia da vida adulta, reclamam quando deveriam trabalhar, desistem quando sequer começaram as tentativas reais. Quase tudo serve de engodo para postergação ou para chamada depressão. Quantos dos seus tios ou amigos dos seus pais fazem terapia? Agora me diga quanto dos seus amigos fazem terapia. O número, pelo menos para mim, quase triplica.

Não estou fazendo menos de possíveis disfunções psicológicas, percebam. Mas me pergunto se elas podem mesm ser chamadas de disfunções ou se são apenas o que meu pai costuma dar o nome de “contratempos da vida”.

É preciso aprender a viver. E a vida, assim como qualquer outra experiência, carrega sua parcela boa e sua parcela ruim. É composta das risadas, mas também das perdas, dos fracassos e dos choros. A maneira com a qual lidamos com essa parcela ruim da vida nos determina de forma muito mais profunda do que os momentos de prazer. Não que eles não sejam importantes, pelo contrário: quem me conhece sabe bem que sou um entusiasta da boa vida. É preciso compreender somente que todos os estados de vivência são mutáveis.

“Nada é permanente, exceto a mudança”: Heráclito já sabia que tudo pode mudar, para o bem ou para o mal. Essa geração, inteligente que só ela, ainda está em tempo de aprender e fazer bom uso daquilo que seus pais falharam em ensinar. De que sucesso de verdade só vem depois de muito esforço e de que esse mundo, definitivamente, não foi feito para os fracos.

Beijos,
Caio

2 Responses to “Uma geração.”

  1. noitedasmeninas Says:

    Assino embaixo! Mandou mto bemmmm no texto! Consegui me enxergar nessa geração Y que você descreveu!
    Adorei!
    Beijos
    Nat

  2. Sami Says:

    http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html

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