“Na vida, não limite-se. Laerte-se.”

Encontro certa dificuldade – e alguma resistência – em começar esse texto. Talvez seja pela importância do tema, mas ainda mais pela responsabilidade das palavras: no terreno no que é incerto e mal compreendido, uma vírgula errada pode ser catastrófica. Digo isso pois Laerte Coutinho, o gênio cartunista, é o mais moderno exemplo de responsabilidade bem empregada. Desde que começou a se travestir completamente como mulher, em meados de 2008, levou com graça e inteligência (e uma extrema virilidade, se me permitem dizer) uma externalização de vontade que muitos – para não dizer quase todos-  tendem a julgar.

Assisti a quase todas as entrevistas que Laerte deu a respeito do que alguns chamam de crossdressing. Do porquê da mudança, os desafios encarados, o que mudou na vida dele, como ele passou a ser encarado. Eu não consigo imaginar ninguém que tenha lidado melhor com um assunto tão polêmico quanto ele. Ele poderia balbuciar, perder o jeito, contradizer-se na ideias, fazer um tolo de si mesmo – não pela sua escolha, é claro, mas quem sabe por não sabe-lá explicar para o mundo. Não foi o caso. Laerte é um peixe liso e bastante esperto; não se deixa ser fisgado. Sai-se bem quando deparado com perguntas capciosas, dribla o politicamente correto fingido com a elegância de uma dama e estapeia uma sociedade hipócrita com a firmeza de um machão. Laerte sai-se tão bem porque Laerte é honesto. Laerte não mente. Laerte não tem medo de dizer que é bissexual, que sempre flertou com o universo feminino, que sente prazer em usar saias e pintar as unhas, que gosta de receber assobios quando passa em frente a uma obra. Laerte é a coragem encarnada.

É a coragem de ser diferente, sem se definir. É a coragem de assumir que ninguém, enquanto ser-humano, precisa de uma classificação. É a ousadia de ser algo que ninguém sabe o que é, nem ele mesmo, que conta abertamente que continua a tentar se entender. Mas precisa saber? Alguém precisa entender?

Menina que gosta de menina, nós chamamos de lésbica. Menino que gosta de menino, nós chamamos de gay. Se gosta dos dois, chamamos de bissexual. Quem não gosta de nada, é assexuado. E quem gosta de amendoim? Tem nome? E aquele que não gosta de amendoim, mas adora paçoca, como chamamos? E a menina, que não gosta de usar salto, mas gosta de usar saia e não usa vermelho? Tem nome pra isso também? Por que é que a gente precisa, tão desesperadamente, de nomes pras coisas? “O nome é um acréscimo e impede contato com a coisa”, escreveu Clarice em A Paixão de GH. “O nome da coisa é um intervalo para a coisa”.

Aceitamos, sem esforço, que pessoas podem ser diferentes. Que podemos gostar de coisas diversas. Essa aceitação só vale, é claro, para a zona de conforto: você pode gostar de azul e eu de amarelo, até aí tudo bem. Mas se você gostar de se vestir de menina, mesmo carregando um pinto entre as pernas, a regra muda: isso é atentado aos bons costumes. Isso não pode. Mas isso só não pode porque ninguém nunca fez antes, porque a regra ainda não foi posta à prova: homem usa calça comprida, trabalha pra sustentar a família, arrota na mesa do bar e gosta de falar palavrão.

Da mesma forma que, toda vez que discordamos de algum senso estético, alguém sempre anuncia um “gosto não se discute”, eu não consigo entender a fixação pela categorização. Cada ser humano é único. Isso não é das proposições mais difíceis de se compreender. Cada pessoa é um universo infinito de possibilidades de gostos, vontades e aspirações. Uns querem ser arquitetos, outros médicos. Uns gostam de montanha, outros de praia. Uns gostam de bermuda e outros de saia, de colar e de pulseira. Pronto. Gosto não se discute.

Eu tenho para mim que Laerte poderia, se quisesse, permanecer vestindo-se de homem para o resto da vida sem grande esforço. Que ele poderia suprimir essa vontade ou então reservá-la para amigos próximos ou para a privacidade de sua casa. O fato dele ter externado para o mundo o que talvez nem fosse uma necessidade latente, me faz ter mais orgulho dele. Ele teve vontade, foi lá e fez. Grande Laerte. Que homem!

“Não podemos ceder à brutalidade”, disse ele sobre o fantasma da agressão aos diferentes. Não cedamos às regras boçais também. Eu, com 22 anos, já conheci uma meia dúzia de pessoas que abdicaram da felicidade para serem aceitos. Que precisam se esconder em rodas específicas de amigos, que temem a própria família, que mentem aos próprios amigos. Quando eu assito ao Laerte sendo tão honesto, não somente consigo mesmo, mas com os outros, é impossível não sentir empatia pelo seu arsenal de sentimentos. Dar a cara a tapa, como ele fez, é para poucos.

Laerte provou que é possível ser único. Que é possível ser diferente. E não só diferente da média. Mas, inclusive, diferente daqueles que se julgam diferentes. Que você não precisa ser gay, ou lésbica, ou travesti, ou punk, ou emo, ou hypster. Você pode ser apenas você e isso está bem.

Mas, se por força do hábito, o mundo precisar que esses seres únicos também encontrem uma definição verborrágica, seja para incluir no dicionário, seja para denominar aqueles que não querem se enquadrar em nenhuma classificação de maneirismos, gêneros ou comportamento, eu proponho uma alcunha. Da próxima vez que alguém perguntar o que eu sou e o que eu gosto de fazer, direi em alto e bom som: “sou laerte e meu negócio é laertar por aí”.

Abaixo, primeiro bloco do Roda Viva com Laerte Coutinho. São quatro blocos e o link irá levar você para os outros três. Assistam, vale a pena:

Beijos,
Caio

3 Responses to ““Na vida, não limite-se. Laerte-se.””

  1. Lucas Says:

    Muito bom amigues =]

  2. minivaca Says:

    ❤ Brigado, amegues. Só a genbte lê o nosso blog, haha!

  3. ricardo Says:

    cheguei ao seu blog pelo google, quandoi busquei a frase do título, que também está no texto da jornalista eliane brum, colunista da época (que, aliás, recomento bastante a leitura http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/enfim-emancipacao-masculina.html).

    achei intrigante o seu questionamento sobre por que definimos as pessoas pelas suas opções sexuais (hetero, homo, bi) e não em razão de outras opções (gostar de azul ou amarelo) e refleti sobre o assunto.

    vejo que nossa sociedade está fundamentada em dois pilares que é o poder e a sexualidade. quase todos os desejos humanos encontram origem nesses institutos, que também se interrelacionam. por exemplo, a definição de sua opção sexual pode te autorizar a ter mais ou menos poder. por isso o laerte é tão provocador: ele saiu de uma posição de poder (heterossexual famoso) e assumiu uma posição inferior, que ainda não se sabe qual é e talvez nunca se saiba, mas é fato que é diversa da que ocupava.

    no caso dele, em razão do poder que tinha, está sendo parcialmente aceito pela sociedade; fosse ele um desconhecido, seria rechaçado. e seria não apenas por deixar de ser hetero e se tornar outra coisa, mas apenas por mudar de grupo. o que os heterossexuais fazem com seus amigos pares quando esses assumem sua sexualidade (exclusão do grupo), os homossexuais também fazem quando seu par descobre que, na verdade, é hetero. ou ainda, quando o indivíduo que vivia em um grupo típico decide se libertar dos comportamentos padronizados.

    vi uma amiga minha, que era lésbica, ser alvo de preconceito de suas outras amigas lésbicas ao iniciar um namoro com um menino. eu mesmo, que sempre me defini como gay, estou sondando minha identidade e descobrindo outras possibilidades; hoje não me sinto mais gay, mas um menino que gosta de meninos, sem definições. esse fato está causando um desagrado nos grupos aos quais eu pertencia.

    falta à sociedade a compreensão de que seus membros podem decidir viver de outra forma, dentro de outros padrões que não sejam o do poder e sexualidade. mas o caminho não é fácil, pois ao admitir que um membro se liberte, admite-se também que se está preso. o homem que vê seu par se desembaraçar das correntes percebe que ele mesmo está acorrentado; por não conseguir se libertar de suas próprias amarras, culpa-se o outro por lhe mostrar que elas existiam.

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